Siccum.


Dava pra sentir o cheiro do seco. O ar era muito rarefeito e a paisagem de um alaranjado singular. A umidade não parecia ser uma presença recorrente naquele ambiente e a cor cinzenta das plantas atestava as suposições. O outro pouco de cor que contrastava com o laranja era o branco, que aparecia raramente na forma de crânios e ossos de animais, espalhados aqui e acolá. O cenário não era bonito. Não era pra todos. Uma personalidade fraca não sobreviveria ali mais do que uma noite.
Lágrima era um luxo que não podia se desperdiçar a toa, porque qualquer forma de água era escassa e supervalorizada naquele ambiente. Crescer ali não haveria de ser tarefa fácil e muito menos tarefa pra qualquer um que não tivesse todo apego do mundo pela própria vida. E ainda assim cresceu. Cresceu e aprendeu que o mundo era duro. Cresceu vendo o mundo cru, a pobreza, a miséria, a exploração da carne humana, todas banalizadas. Aprendeu que o pior dos demônios era aquele que existia dentro de si e que fazia você desejar o pior que poderia haver pra qualquer um.
Descobriu que a carne dilacerava, mas a alma não, a alma era perene e se os vícios pudessem ser controlados, nada poderia lhe fazer mal. Então o fez. Treinou dia após dia sua mente, sem saber ao certo que estava fazendo, se tornou forte, se tornou sagaz, se tornou inteligente, se tornou uma pessoa irresistível, magnética. Isso não custou barato, seu espírito era tão marcado quanto o chão em que cresceu pisando. À medida que o processo acontecia seus sonhos avultavam-se, tornavam-se vastos como o céu da noite e seu desejo por ser mais do que o que havia lhe sido oferecido crescia. Mais e mais a cada dia. 
Até que aconteceu o que havia de acontecer, uma alma tão grande não poderia ficar ali a espera que o mundo a descobrisse e a acolhesse. Partiu por si e descobriu o que havia de descobrir. As bases forjadas no ambiente em que se formou pessoa mantinham-se intactas e tão forte quanto o desejo de ir, era o desejo de voltar e mudar. Tão forte quanto o sentimento de sobreviver, era o de ajudar. E seguiu, dia após dia, fraguando seus alicerces, fortalecendo-os ao passo que sentia seus sonhos metamorfoseando-se.
Gozou o prazer de saciar seu ego. Regozijou-se de realizar seus sonhos. Nasceu, cresceu, formou-se, sendo o que deveria ser, sendo fruto de uma terra dura. Não se abateu diante de nenhuma dificuldade e dia após dia moveu-se em busca de condições melhores, alcançou-as e sem satisfazer-se, estendeu-as. Fez do mundo um lugar melhor, honrando cada pedaço de terra que pisou. Demonstrou que a força de uma personalidade depende do meio em que ela nasce. E tinha vindo de um terra pra poucos. Desafiou o diabo. Desafiou Deus. Acolheu-se nos braços da virgem santíssima durante toda sua jornada e por fim, se foi assim como veio. Sabia desde o início que não haveria de ficar. A constância não era um virtude que aprendeu a desfrutar.  

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