Algoz.


Então eu estava sentado mais uma vez no lugar onde tudo havia iniciado, em frente ao mar, observando aquele pôr-do-sol que marcava uma paz singular, mas que naquele momento não representava nada daquilo. Estava ali perdendo mais um pouco da minha sanidade, sentindo mais uma vez os maus pensamentos tomando conta de mim, sentindo o calor que envolvia minha garganta, como se mãos abissais o envolvessem e começasse a apertar aos poucos, interrompendo a passagem de ar pela minha garganta, e puxasse minha pele até desgrudar dos músculos lentamente, como se ela quisesse leva-la sozinha.
Prisioneiro dos maus pensamentos, notava intensamente todos os mínimos detalhes do meu corpo, a palpitação na região gastroesofageal, o sangue circulando a uma pressão maior que a normal, poderia jurar que até a descarga de adrenalina era perceptível a qualquer um que me visse ali, me sentia transparente, suando frio, sentindo o mundo acabar aos poucos, sem o mínimo de controle sobre qualquer ação que as outras pessoas tomariam e como aquilo poderia interferir na minha vida. Senti o chão se abrir um pouco e meu corpo desfalecer momentaneamente para então retornar, confuso, com visão turva, ainda imaginando que um ser tétrico era o responsável por toda aquela prisão que se construía aos poucos ao meu redor e me apertava contra as paredes.
Senti o suor frio escorrer em minhas mãos, me levantei com um pouco de receio, não sabia se tinha controle sobre meus músculos, não sabia se tinha controle sobre minhas ações, tentei respirar, ainda era difícil, tentei respirar mais uma vez, ainda não era possível, minhas narinas não eram o suficiente pra expirar o ar necessário, respirei pela boca, sorvi o ar, sentindo-o entrar em meus pulmões e preenche-los aos poucos, senti-os expandir e contrair expelindo o ar que por breves instantes haviam me consolado, meus músculos absurdamente rígidos contrariavam minha intenção de manter um movimento e por isso tremiam e minhas costas doíam, como se eu fosse o próprio Atlas e tivesse carregado o mundo nas costas por anos e anos.
Procurava por ar e um pouco de paz, mas encontrei eu mesmo, procurava por brisa e balanço do mar, mas encontrei eu, ao meu lado, me enchendo das minhas frustrações mais uma vez, me cobrando excessivamente por algo que não estava sob meu controle, mas eu não sabia daquilo, não sabia lidar com meus desejos, não sabia lidar com a vida, desejava morfina, desejava o vazio, desejava que nada daquilo existisse, desejava o ódio, por ter associado o amor à decepções, desejava o vazio, porque estar cheio se tornava cansativo, desejava apagar minha existência e todos os rastros dela, desejava me livrar de mim mesmo e de toda dor que eu mesmo me infligia.
Então vi um rosto conhecido, senti todo meu corpo enrijecer mais uma vez, sentei, pois o peso que a falta de ar fazia era insuportável, senti a pressão no peito, senti o calor do meu sangue por baixo da pele e o frio do vento por cima dela, senti o formigamento nos lábios, no pescoço, nas mãos. O rosto se transformou em um corpo, que se transformou em um andar, que se transformou em um toque no cabelo e então se materializou em uma voz, uma voz que soou muito mais alta pra mim, porque era a única coisa que eu conseguia escutar em meio ao silêncio abismal e aterrorizante que me circundava, a voz reverberava em meus ouvidos, batendo em todos os pontos da minha cavidade craniana. Eu tentei responder, eu tentei olhar pra o rosto conhecido e buscar conforto, mas eu não o reconhecia mais, eu estava morto e enquanto percebia que narrava sobre uma morte anunciada, eu encarava meu assassino, sorrindo secamente, com uma expressão sarcástica e com uma retórica impecável, explicando detalhadamente, com um requinte científico, porque havia me tirado o direito de viver. E quem era meu assassino? Era eu, eu mesmo havia me matado aos poucos e só havia percebido aquela morte ali. Então assenti e aceitei minha morte. Me libertei de meu algoz, aquele era nosso último encontro, descansei eternamente.
A voz conhecida então se manifestou novamente: “Você está bem?”; e então respondi: “Melhor do que nunca”.

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