Eu, eu mesmo e infinitos de mim.
Encontrava-me
jogado em uma piscina de fungos, enterrado em meio aos ácaros que devoravam os meus
restos de pele morta, enquanto eu me movimentava em oscilações cíclicas,
rolando de um lado ao outro, tentando desviar a atenção do teto e conseguir
entender o que se passava em minha mente, que já cansada e cheia, não servia de
nada além de uma fonte de agonia insuportável.
Ao fundo dessa cena, os acordes da guitarra de Tom York não ajudavam
muito a mudar a situação e tornar ela pelo menos um pouco mais tolerável, na
verdade, as sensações despertadas traziam mais pensamentos e mais
questionamentos sobre aquele emaranhado de crises existenciais.
Num esforço
pra lá de sobre-humano, me levantei, caminhei até a cozinha, peguei a
cafeteira, depositei uma quantidade de café suficiente para fazer inveja a
Getúlio Vargas e me joguei no sofá da sala esperando meu café ficar pronto. Dessa
vez fitando o vazio da estante, com olhar concentrado no nada, tentava lembrar
como era aquela estante antes de eu chegar ali e ocupar aquele apartamento, me
perguntava se a vida que um dia existiu ali alguma vez se preocupou com a ordem
das cores da jujuba, se Rick And Morty tinha mesmo uma história, ou era só uma
porção de episódios aleatórios que não conversavam entre si e eu só tentava me
forçar a acreditar naquilo.
Então comecei
a devanear sobre a existência de outros Eus, espalhados por infinitas
dimensões, com diferentes papéis na sociedade, me imaginei construindo uma
cidade habitada apenas por Eus, mas a ideia soou insuportavelmente sufocante. Então
o refrão de High and Dry me jogou
para outro questionamento, imaginando se em alguma dessas dimensões algum outro
Eu estaria pensando sobre a existência de outros deles e cheguei à conclusão de
que seria bem provável que sim, porque estatisticamente o infinito é muito
grande e se você tem um espaço amostral de tamanho ilimitado as chances de
qualquer coisa acontecer são infinitas, então eu ri pensando em como teria sido
a reação de todos os infinitos Eus que teriam parado para pensar sobre aquilo e
se dado conta de que existiam infinitos dele pensando sobre a mesma coisa e aí
o cheiro de café subiu. Levantei para me servir de uma xícara de café, abri a
geladeira procurando algo para mastigar e lembrei que tinha um pote de
rapaduras no armário, voltei para o sofá.
Me reconectei
ao meu devaneio, pensando sobre como eu explicaria às pessoas aquele meu
pensamento, dei uma leve risada relembrando meu histórico de ter pensamentos
que nem sempre são do interesse geral das pessoas, daí me peguei pensando nas
pessoas e em como elas não são nada mais do que um punhado de átomos,
arranjados de uma maneira que sejam capazes de analisar, processar e reproduzir
as informações obtidas a partir da observação de outros punhados de átomos,
então me peguei pensando sobre como além de explicar sobre toda a minha
discussão interna sobre múltiplos Eus espalhados por infinitas dimensões ainda
tivesse que explicar sobre as chances de que os outros Eus fossem arranjos de
diferentes átomos e que tivessem aparências diferentes, mas que no final das
contas, devido à combinação de átomos que desenvolviam moléculas com funções
semelhantes, que reagiam de maneiras equivalente e no final das contas todo o
processo resultasse na mesma informação, que era um outro Eu. Aproveitei e
pensei no contra-argumento de que éramos únicos e só um arranjo específico de
átomos poderia dar origem a cada ser, então tive que voltar à explicação do
espaço amostral e elaborei uma explicação básica sobre conjuntos, probabilidade
e espaço amostral, pra tentar deixar mais claro de que num espaço infinito era
impossível existir apenas uma informação igual e mesmo que meus devaneios
probabilísticos que soavam como se eu desprezasse a existência de um Deus
onipotente, onipresente e onisciente, ainda era válidos para a existência de
tal ser, visto que ele era infinito e mais uma vez a regra se aplicava.
Foi aí minha
mente descansou um pouco, regozijando-se do fato de que de certa maneira todos
nós éramos infinitos e se preocupar com o vazio da estante era irrelevante,
porque no final das contas, tudo está preenchido de informação e existe da
maneira mais intensa possível, porque tudo é infinito e num mundo onde as pessoas
acreditam serem exclusivos e únicas, ser infinito é a melhor coisa que você
pode ser. Ri, tomei meu café, comi minha rapadura, mudei a música, agora é hora
de ouvir Tim Maia.
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