Grão.
Eu
já tinha visto de tudo um pouco nesse mundo, de fato estou aqui há tempo o
suficiente para acreditar que era muito importante e que aquele planeta era
meu, mas ainda assim sabia que eu não era muito mais do que uma parte muito
pequena dele e nem toda a experiência que eu tinha acumulado era suficiente pra
me colocar em alguma posição de destaque na sociedade. Na verdade, naquele dia
em especial, que não tinha de especial já que eu tinha passado por outras
situações daquela tantas vezes que eu nem me lembrava mais, eu vivi o que
chamava de “montanha russa social”.
Comecei
meu dia como todos os outros, dentro de uma casa, da casa que tinha um café da
manhã enorme e apetitoso fui para o carro, carro também luxuoso e confortável
que pouquíssimas pessoas tinham acesso a um modelo daquele, do carro fui para
uma das instituições de maior prestígio social, uma universidade, local onde
pouquíssimos entram e que me traz uma grande sensação de estranhamento, porque
o nome universidade não condiz com a condição que ela representa o vocábulo em
latim que deu origem a palavra moderna “Universitas” tem o significado de
“tornar um” e de nenhuma maneira podia se observar isso dentro daquela
instituição.
Segui minha
jornada por dentro dessa instituição maluca até me chocar com um jovem que me
levou até outra parte da cidade, bem mais humilde, onde a palavra “educação”
tinha o mesmo valor que a palavra “ouro”, pois ela era tão escassa quanto. O
jovem me deixou e seguiu sua jornada, eu fiquei lá observando as pessoas passando
de um lado ao outro, o esgoto correndo a céu aberto, uma menina de 15 anos
grávida, a senhora vestida com camisa de político, ouvi duas ou três pessoas se
queixando sobre como a vida poderia melhorar se uma mudança muito radical
acontecesse e então uma senhora idosa resolveu me tirar dali e me levou pra
outro lugar, quando notei estava em um shopping center, com pessoas andando de
um lado para o outro, entrando e saindo de lojas, saindo cada vez mais
carregados de sacolas, acumulando bens materiais como se eles fossem descrever
algo mais do que eles eram.
Fiquei no
shopping até a hora que uma jovem mulher grávida me carregou pra fora, onde
ficou parada esperando seu acompanhante chegar, entrou no carro, foi embora e
me deixou ali. No chão, onde eu estava acostumado a estar e sabia que aquilo
não era nada demais, acabei me aconchegando entre um cachorro e seu amigo
homem, que dormiam por ali, na porta do shopping, o homem trabalhava na porta
do shopping observando os carros e tentando evitar que eles fossem roubados ou
vandalizados, dormia na porta do shopping esperando que de alguma maneira o
shopping fizesse o mesmo por ele.
Eu vivi aquilo
tantas vezes que era comum pra mim, eu sabia que aquilo ali era passageiro, que
a própria existência da humanidade tinha dias contados, mas eu não, eu estava
ali há muito tempo, eu vim de restos de outros planetas, minha existência não
era efêmera como a dos seres humanos e eu podia ver o mundo de uma maneira mais
global, ironicamente, eu era apenas um grão de areia.
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