Cthlulu, o som e eu.
“Esse não é o
beat”
Pensei alto, tentando encontrar o tempo certo pra mixar o sample de uma música na batida de rap que eu estava compondo. Me afastei do computador, olhei para a prateleira cheia de discos, separei alguns em cima da mesa e caminhei até o bar, abri o frigobar, peguei duas pedras de gelo, coloquei em um copo, me servi de uma dose forte de whiskey.
“Talvez esse não seja o melhor momento pra trabalhar essa música”, falei pra mim mesmo continuando a discussão interna.
Coloquei o primeiro CD no toca discos, “Solta o Pavão” de Jorge Ben, eu gostava muito da faixa “Jorge de Capadócia”, tinha um beat melódico bem característico, já utilizado anteriormente pelos Racionais, como música de abertura do álbum “Sobrevivendo ao Inferno”, não ia colar fazer uma música usando um sample já utilizado pelos Racionais.
Pensei alto, tentando encontrar o tempo certo pra mixar o sample de uma música na batida de rap que eu estava compondo. Me afastei do computador, olhei para a prateleira cheia de discos, separei alguns em cima da mesa e caminhei até o bar, abri o frigobar, peguei duas pedras de gelo, coloquei em um copo, me servi de uma dose forte de whiskey.
“Talvez esse não seja o melhor momento pra trabalhar essa música”, falei pra mim mesmo continuando a discussão interna.
Coloquei o primeiro CD no toca discos, “Solta o Pavão” de Jorge Ben, eu gostava muito da faixa “Jorge de Capadócia”, tinha um beat melódico bem característico, já utilizado anteriormente pelos Racionais, como música de abertura do álbum “Sobrevivendo ao Inferno”, não ia colar fazer uma música usando um sample já utilizado pelos Racionais.
Coloquei o
segundo CD “Pérola Negra” de Luiz Melodia, “Vale Quanto Pesa” tinha também uma
melodia interessante pra samplear e pôr em loop, mesclando com trechos da
introdução de “Jorge da Capadócia”, com o intuito de dar um break e levantar o
astral da música, pensei em um riff simples baseado nos arpejos de si menor
com sétima e mi maior com sétima pra completar a batida da música.
"Acho que aquela fender stratocaster chaveada no single da ponte daria um timbre legal usando um efeito de delay combinado com o chorus, talvez ficasse interessante".
Acrescentei algumas linhas de baixo, omitindo elas em partes propositais pra ressaltar a letra da música. Deixei os outros discos em cima da mesa e esqueci-os por uns instantes, copiei aquelas samples, gravei a guitarra e o baixo, fiquei obcecado por aquela música por um bom tempo, enquanto tomava aos poucos a dose de whiskey, agora já misturado gelo. Quando minha mente encheu e eu não conseguia mais me concentrar, parei e olhei pela janela, o alaranjado do sol já brotava no horizonte, senti uma leve angústia, vi o mar, lembrei de Cthlulu e de você, as duas memórias mescladas, como se pertencessem a um mesmo evento.
"Acho que aquela fender stratocaster chaveada no single da ponte daria um timbre legal usando um efeito de delay combinado com o chorus, talvez ficasse interessante".
Acrescentei algumas linhas de baixo, omitindo elas em partes propositais pra ressaltar a letra da música. Deixei os outros discos em cima da mesa e esqueci-os por uns instantes, copiei aquelas samples, gravei a guitarra e o baixo, fiquei obcecado por aquela música por um bom tempo, enquanto tomava aos poucos a dose de whiskey, agora já misturado gelo. Quando minha mente encheu e eu não conseguia mais me concentrar, parei e olhei pela janela, o alaranjado do sol já brotava no horizonte, senti uma leve angústia, vi o mar, lembrei de Cthlulu e de você, as duas memórias mescladas, como se pertencessem a um mesmo evento.
Olhava para o
mar com assombro, era apenas eu naquela casa, mais uma noite, ouvindo as ondas
do mar quebrarem, sem vizinhos, sem ninguém por perto, apenas as estrelas, a
lua e os coqueiros podiam compartilhar da mesma visão que eu, o que me deixava
mais em pânico ainda. Pensei na possibilidade de um ser abissal emergir das
profundezas do mar, provocando um enorme tsunami, brandindo seus tentáculos e destruindo tudo que encontrava pela frente,
tive pavor e pensei se enquanto isso ocorresse eu ao menos teria tido a chance de contemplar os olhos negros da
besta cósmica que ali executava a sentença de morte da humanidade. Senti um calafrio subir pela minha espinha, me arrepiei, tentei desviar a atenção do mar
e lembrei de algo tão triste quanto a extinção da raça humana, a tristeza no
teu olhar naquela noite. Eu era presa fácil para qualquer movimento seu, sempre
fui, você sempre soube, mas agora era tudo diferente e eu já não era mais o que
sempre fui, eu já não tinha mais as mesmas necessidades, já não via mais o
mundo da mesma forma e tudo aquilo era perturbador demais pra ser pensado,
precisava de algo mais forte, precisava de um Clonazepam misturado em outra
dose de whiskey, talvez heroína me ajudasse mais um pouco, mas dessa vez não
teria mais alguém que me aplicasse Nalaxona.
Senti meu corpo tremer mais uma vez, o arrepio se intensificou, uma estranha sensação de calor, misturada um frio interior, o suor frio começou a escorrer em minhas mãos, as paredes iam se estreitando junto ao leve sibilar que ampliava-se instante após instante, mas que mantinha sua origem desconhecida. Senti na alma o peso de estar sozinho aquela noite. Senti como se tudo estivesse se esvaindo por meus olhos, sentia minha alma sendo tragada progressivamente. Assistia perturbadoramente atordoado o crepitar de dois olhos, ascendo ao fundo de meu quarto. Sua presença era real e tão aterradora quanto eu imaginava. Não haviam delírios suficientes que descrevessem meu temor naquele angustiante instante, senti minhas esperanças sendo despedaçadas e eu sendo arremessado de uma vez por todas no limbo do esquecimento. Dilacerado. Tudo que eu havia presenciado se perdia a medida que o crepitar dos olhos inflamava e o sibilar avultava-se. O torpor tomou conta de mim, minha mente rodava em infinitas dimensões, conjecturando sobre indescritíveis futuros em que todos os finais me perdia de mim mesmo. Já não tinha mais forças para encarar terríveis visões e abri mão de manter minha sanidade, buscando a viagem que aqueles olhos turvos me levavam. Abracei a loucura indefinidamente e fui ao encontro do nada que me era oferecido.
Despertei do transe muito depois, me dando conta de
que ainda estava em meus escritório. O álbum
“Pérola Negra” estava tocando em loop pela n-ésima vez e então notei como os vocais de Johnny Hooker se assemelham com os de Luiz
Melodia na faixa “Magrelinha”, na verdade era até difícil de distinguir quem
cantava se não fosse pela levíssima rouquidão da voz de Luiz nas partes mais
graves. O efeito da alucinação auto induzida se esvaia aos poucos, mas em minha mente ainda martelavam lembranças tristes. Eu não queria ficar mais nenhum instante pensando em seu
olhar, ou no meu olhar, ou em pensar que nós estávamos tristes e
distantes. Tomei um pouco de açúcar marrom, senti o alívio se espalhar por minhas veias e eu me esforçava para esquecer aquele sentimento. Eu havia feito a música
certa pra aquele momento, no entanto eu só queria ouvir On The Rocks de Rita
Lee.
Comentários
Postar um comentário