Eu não sou mais um clipe de música indie.
Som de uma gota batendo na água.
“Já parou pra perceber como
os ponteiros do relógio caminham mais rápido quando você olha pra eles? Vinte e
quatro horas não são suficientes pra viver um dia, é necessário mais tempo, não
dá pra dormir, não dá pra trabalhar e não dá pra viver." Estava
deitada no tapete, mergulhada em almofadas, encarando o totem do deus tempo
erigido na parede vazia da minha sala e ele por sua vez me encarava de volta
soltando sua sorumbática mensagem bitonal, alertando-me sobre o quanto da minha
vida estava sendo desperdiçado enquanto eu me deitava ali.
Som de mais uma gota batendo na água.
Olhei minha bolsa jogada no
chão e lembrei daquele moço, quando ele me perguntava o porquê de eu sempre
levar tanta coisa na bolsa, era meio fofo quando ele fazia perguntas tolas,
parece que não entendia que eu precisava sempre estar preparada para qualquer
coisa que pudesse me acontecer. Eu havia trazido trabalho pra casa mais
uma noite, porque precisava terminar aquilo e levar amanhã, mas queria ficar só
deitada, sentindo o cheiro das minhas orquídeas, que se acentuava no tempo
frio.
Outros sons de gotas batendo na água, como se
caíssem todas de uma vez.
Eu queria só apreciar mais um
pouquinho daquele cheirinho de terra que subia aos poucos. À medida que a chuva
caía, o ar frio entrava pela janela do apartamento e rastejava buscando alguma
fonte de calor que pudesse o libertar e fazê-lo subir. Então rasteou até
encontrar meu corpo e de forma quase mística ascendeu. Não havia ninguém para
calcular a taxa de troca de calor por convecção, número de Reynolds, Prandtl ou
Nusselt, pois a turbulência mais importante não podia ser medida, a viscosidade
do ar frio era sentida em minha pele, mas não fazia diferença, e o fluxo de
calor que era roubado de mim não importava.
Mais sons de gotas batendo na água. Via-se uma
taça Dry Martini enchendo rapidamente.
Eu era a fonte de calor
necessária para aquele ar tentando pisgar-se. E ironicamente sentia que eu
mesma queria pisgar-me dali, mas não havia fonte de calor para me ajudar a
ascender e encontrar o caminho. Liguei o som e coloquei uma seleção de músicas
do Pearl Jam para tocar, soaram os primeiros acordes de Yellow Ledbetter, eu
gostava da voz do Eddie Vedder e daquele solo simples com a guitarra usando a
distorção no máximo, pra depois voltar a acordes mais simples ainda, sem efeitos de
distorção. Eu conhecia tão poucas bandas, queria mais tempo de conhecer e
entender melhor as que eu já conhecia, ouvir as letras com atenção, queria
poder ir para mais shows.
As gotas se amontoavam sobre a taça e
começavam a transbordar, já que a força de coesão das moléculas não era mais
suficiente para segurá-las.
Não aguentava mais aquela
rotina de apenas vinte e quatro horas, me jogando dentro de salas e me forçando
a sentar em cadeiras que eu não queria sentar, me obrigando a vestir mais
roupas que um biquíni. Tudo havia perdido o gosto paulatinamente, as comidas
não tinham mais o mesmo sabor de antes, a bebida já não me entorpecia o
suficiente, nada me saciava, nem o sexo era mais algo prazeroso, nada além de
roupas jogadas no chão, nada além de carne batendo na carne, nada de prazer, eu
não conseguia mais me sentir livre e aproveitar a vida.
Eu me via como uma taça, onde
cada nova experiência de vida era uma gota. Por um bom tempo as gotas não pararam
de cair, eu me sentia encher, eram promoções no trabalho, e mais algumas gotas,
eram novos destinos no mapa, mais e mais gotas, novas comidas, novos filmes,
companhias prazerosas, gotas, gotas e mais gotas, eram novas camas, eu sentia o
sexo com aquele moço, sentia um misto de novas sensações que me engrandeciam,
eram tantas gotas me enchendo, eu me sentia saciada e buscava viver mais cada
dia, até que as gotas pararam de cair, senti o vazio pela primeira vez.
Olhei para o totem erigido em
minha sala, o deus tempo movia seu braços me alertando que as coisas acontecem
o tempo todo e o pior que eu podia fazer era ficar parada, então desfraldou um
de seus braços enquanto largou um de seus impiedosos “tics” e o repousou
respondendo com um mordaz “tac”. Aquele era o gatilho necessário para
iniciar o efeito dominó em meus pensamentos, finalmente havia vislumbrado o
cerne daquele problema, pude então contemplar uma solução para tal.
Estiquei minhas pernas e braços, me espreguiçando, peguei as coisas que havia
trazido do trabalho e joguei no escritório, tranquei a porta e escondi a chave,
caminhei até a cozinha, preparei uma dose de Martini pra mim e peguei meu
celular, era hora de fazer algumas ligações.
A corrente de água nesse instante era muito forte e a taça que já esborrava não suportava mais o próprio peso então virou e derrubando toda água dentro dela. Instantes depois, alguém regulou o fluxo de água para gotejar novamente e colocou a taça no mesmo lugar.
Comentários
Postar um comentário