O que a Escherichia Coli não sabia.


Derretia em saudades, deitado no chão da sala sentindo um misto de sensações desconfortáveis, como se minha pele tivesse ficado um milhão de vezes mais sensível. Sentia o chão muito mais álgido que o normal, como se eu tivesse deitado sobre um bloco de gelo, tão frio que queimava minha pele, me causando dor insuportável, ainda assim eu não oferecia resistência para me levantar, pois aquilo era sentir algo e há muito eu sentia nada. Enquanto isso a pele do meu peitoral e abdômen ardiam em brasa, sentindo como se minha pele não fosse a mesma pelo meu corpo e não conseguisse mais viver com aquela agonia indescritível que era ser parte de mim, meus músculos se contraíam em agonia, ao ponto de produzir ácido lático, me causando outra dor insustentável, que se somava à outra e mantinha meu sistema nervoso ocupado por uns instantes. Fechei os olhos e respirei fundo.
Olhei aquela camisa e pensei em como eu já não era mais eu. Perguntava-me onde estavam minhas raízes, pois tudo que via em mim tinha um pouco de ti. Deitei-me para assistir um vídeo do Stevie Ray Vaughan e lembrei de você, mas isso não fazia sentido, já que você nem gostava de SRV e provavelmente continua sem saber quem ele foi. Mas lembra daquele dia que você me deu aquela camisa dizendo: “Lembrei de você”; e eu fiquei super feliz, me empolguei e falei por um bom tempo sobre a carreira de um guitarrista que tinha resgatado o blues em meados da década de 80, mas acabou morrendo prematuramente em um acidente de helicóptero? Bem, esse era o SRV e a música dele me lembra você, você não sabe disso, mas tudo que era eu, se tornou você também.
Você era a parte de mim que nenhum CRISPR CAS 9 poderia tirar. De alguma forma é como se todo o tempo que estivemos juntos você tivesse realizado um processo de transcrição reversa e modificado meu DNA profunda e sistematicamente. Todas as experiências que me trouxe, modificaram o que sou e a cada dia que passávamos juntos, sentia as enzimas sintetizando meus sentimentos, minhas ações, minha forma de pensar e ver o mundo, sentia que cada risada tua, se tornava uma faixa de mRNA procurando cada um dos meus nucleotídeos em busca de tRNA, pra sintetizar mais uma faixa de DNA que seria integrado ao que já existia. Tudo que fazíamos me marcava profundamente, a forma como você olhava pra mim depois de comer, o jeito que você censurava minha roupa e minha vontade de me largar aos desejos do destino, tudo isso me mudou.
E sentia que as modificações eram tão profundas que já não podia dizer mais quem eu era, havia deixado de ser o que fui um dia, você alterou tudo por aqui, cada traço do meu código genético tinha um trecho escrito a mão por você e isso me tornava um ser complexo, complexo ao ponto de ter uma pele que não pertencia a si e não tinha função além de ser uma fábrica produtora de oxitocina que precisava de teus abraços para funcionar a todo vapor.
 Olhei mais uma vez pra camisa, lembrei mais um pouco de você, lembrei da sua cara de paciência tentando controlar pra não ser grossa, mas ansiando que eu terminasse logo de falar aquilo, eu deveria ter parado, mas me empolguei demais, talvez esse seja meu pior defeito, eu me empolgo com tudo, me empolguei e destruí tudo. Eu suspirei fundo, pus a mão na face e apertei os olhos tentando esquecer, mas não esqueci, a camisa ainda estava ali, Stevie Ray ainda era um dos meus guitarristas favoritos e você ainda fazia parte de mim.
Uma notificação apareceu na tela do celular, não era você, não era a mensagem que eu esperava, mas era uma mensagem divertida, tentei responder a mensagem divertida com outra mensagem divertida e aí pensei numa piada, mas era uma piada tão boa que eu não tinha certeza se valia a pena gastar aquela piada pra conseguir um sorriso que eu não fazia questão de ter comigo, eu gostava mais da ideia de mandar a piada pra você e imaginar você dando uma gargalhada tímida pra não parecer uma maluca rindo sozinha. Eu gostava tanto de ter você nas minhas conversas favoritas, porque a gente deixou isso acontecer? Como a gente vai resolver isso? Eram perguntas para as quais eu não possuía resposta, nem tinha ideia alguma de como responder.
Eu estava ali olhando aquela camisa há mais de horas, eu já tinha ouvido tanta música, eu já tinha feito tanta coisa na minha imaginação, eu já tinha olhado pra todos os móveis na sala e já tinha encontrado traços seus em cada quina deles, eu já tinha olhado pra o meu caderno, pra minhas letras, pra os meus livros da faculdade, tudo tinha um pouco de você, você se espalhou por tudo, como um punhado de confetes, você tinha entrado em todos os lugares da minha vida e tinha ficado lá, eu poderia me apressar pra começar a faxina, mas eu não queria, queria viver o clima de carnaval que sempre tive, nunca fui fã de Los Hermanos e nunca aceitei que todo carnaval tinha seu fim. Quero um pouco mais de confete, pra jogar na minha blusa. Quero me cobrir de confetes e não conseguir mais removê-los de mim.

Comentários

Postagens mais visitadas